Sábado, 27 de Janeiro de 2007

PRAÇA RODRIGUES LOBO

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PRAÇA RODRIGUES LOBO

A Praça Rodrigues Lobo - a mais agradável de Leiria, como costumavam afirmar os coimbrãos que, habituados á sua «Praça», aí destilavam um exílio errante de docentes -, foi o verdadeiro centro urbano de Leiria; à medida que a vila se desenvolveu, abandonando a cerca antiga e aproximando-se do vale do rio, cresceu topograficamente a importância do local, de tal forma que nele se veio a levantar o pelourinho, simbolo da autonomia e da justiça municipais, ao mesmo tempo que se convertia em «Praça» pública.

Mas as origens ancestrais desta Praça prendem-se com as de um edificio religioso, a igreja de S.Martinho (c.1211), à qual estavam ligadas as confrarias do «Corpus Christi» e do Santíssimo Sacramento; a festa desta última, de fundação mais recente, realiza-se no largo do templo, onde nos inícios do século XVIII viera também estabelecer-se o Hospital de Todos-os-Santos. Com o arco e o alpendre da igreja para a realização da feira anual, instituída por D.Dinis em 30 de Abril de 1295, por «hum Beneficiado della e por hum homem bom do conselho, sendo os benefícios da renda para a «fabrica da igreja, e para as calçadas e pontes» (O couseiro..., 1869).

Da Igreja, que se situava junto ao arco que até finais do século XIX «fechava» a Praça, ficou a denominação da «Ponte de S.Martinho», que lhe dava acesso; entretanto, o local já acostumado da feira começou a animar-se semanalmente, aos domingos, hábito que foi contrariado por provisão de D. Afonso V de 10 de Julho de 1453, estipulando que «a dita feira se faça em cada hua semana aa terça feira e nom ao domingo por que assy ho avemos por serviço de Deus e nosso» (Luciano Coelho Cristino in Jornadas sobre Portugal Medieval, 1983). Em documentos posteriores a 1552, publicados por Sousa Viterbo, surge já a designação de «Praça de S.Martinho» - mas já então fora demolida a igreja, assim deixando mais amplo espaço para a urbanização da nova Praça...

neste processo interveio, curiosamente, frei Brás de Barros, cujo nome ficou ligado aos dois centros mais importantes, do ponto de vista arquitectónico e urbanistico, da Leiria quinhentista. Com efeito, em 1546, frei Brás de Barros cedeu à cidade, em troca dos antigos Paços Reais (onde estava instalada a administração do município e que seriam os futuros Paços Episcopais), «hum pedaço do Rocio junto a S.Francisco...com a clauzulla que o caminho que hia do Rocio ao longo do muro dos frades, ficaria de modo que pudesse hir por elle hum carro, e que derribando-se a Igreja de Sam Martinho, o assento e adro della ficasse à cidade para a Praça...» (O Couceiro..., 1869).

A urbanização da Praça levanta, porém, alguns problemas de difícil resolução; o hábito de realizar o mercado nos «balcões» sob a arcaria, que persistiu sempre na sua feição urbanistica, pode levar a supor tratar-se então de um arranjo de elementos arquitectónicos que integravam a antiga igreja. Aliás, só em obras relativamente recentes (c.1960), se procurou dar uniformidade ao conjunto arquitectónico definido pelas arcadas, do lado poente da Praça, apenas interrompido por uma coluna fruste, sem base e com um fruste bojudo ornado por toro que precede o capitel simples, idêntica às que restavam de uma colunata anterior. É natural que ambas - colunata e arcaria - , coexistissem desde sempre, quer pelo aproveitamento dos materiais da igreja, quer pela construção de novas arcadas.

O traçado da Praça, da segunda metade do século XVI, formando um quadrilátero quase regular, não difere, no essencial, do da planta de Leiria de 1809; tanto o conjunto das arcadas, como o do edifício que lhe está contíguo, a sul, abrindo a prespectiva da Praça ao prolungar-se para além do espaço do seu recinto, fazem lembrar imagens da Baixa de Lisboa pombalina e o seu urbanismo das Luzes. Mas esse prédio de nítida influência mardeliana, no duplo telhado germânico e no jogo dos vãos, com um perfil das molduras idêntico ao do estilo pombalino, é já posterior a 1830...

Aí se situava, com efeito, a antiga Igreja da Graça, cujo nome ainda se conserva na toponímia Leiriense, designando a rua sobranceira que desembocava no Largo da Graça. A capela de Nª.Sª. da Graça havia pertencido à Igreja de S.Martinho, sendo depois novamente reconstruida na Praça; profanada durante as lutas liberais, a Igraja da Graça foi certamente demolida na década de 30 ou já de 40. Defronte da arcada, junto à embocadura da Rua D.Dinis, antiga Rua dos Banhos ou de D.Mexia, entre a Praça e o Largo dos Banhos (actual Largo D. Paio Guterres), erguia-se a Capela de Nª. Sª. da Anunciação, que pertencia ao Palácio dos marqueses de Vila Real.

Este enorme edifício, com a sua fachada nobre orientada sobre a Praça, ostentava o brasão sobre o arco e vagas reminiscências manuelinas na janela geminada da frontaria, era de aspecto severo. Dele ficou um desenho de A. Haupt, nas suas excurções a Portugal em finais do século passado, que o descreve do seguinte modo: «as grossas cantarias do cunhal e as duas janelas graciosamente lavradas, que se abrem na vasta largura das paredes, são tudo aquilo de que o artista carecia para criar para criar uma impressão forte e completa a que não falta sequer o pitoresco resultante com a travessa que corre por baixo do arco» (Arquitectura da Renascença en Portugal, 1896).

Doado por D. joão III aos condes e depois Marqueses de Vila Real, quando lhes concedeu a alcaidaria-mor da vila, foi-lhe confiscado após a conspiração de D. Luis de Noronha e Meneses, sétimo marquês e nono conde de Vila Real, contra D. João IV. Os bens dos Vilas Reais passaram a integrar a Casa do Infantado e com eles D. Pedro, o primeiro a usufruir da sua posse, realizou importantes obras de aterro do rio no Rossio. O Palácio seria mais tarde reivindicado, com sucesso, por um descendente natural de D. Miguel de Meneses, que recebeu o título de primeiro conde de Valadares - e cujo filho, D. Alvares Abranches e Noronha, bispo de Leiria de 1694 a 1746, celebrou missa na igreja de S. Roque, em Lisboa, por alma do padre António Vieira.

Demolido o grande palácio, em 1884, em pouco se alterou a configuração urbanística da Praça, se se exceptuar o desaparecimento do velho arco. No seu lugar ergueu-se, de um lado, um prédio de rendimento formando gaveto com o actual com o actual Largo 5 de Outubro e a Travessa de Sant´Ana (Rua Vasco da Gama), reconstruido pelo arquitécto Ernesto Korrodi, por volta de 1915; pertencia, então, a Joaquim de Oliveira Zuquete, um dos mais activos intervenientes na vida social leiriense após a instauração da Républica.

Do lado oposto, outro prédio de gaveto, com pormenores que realçam a sua arquitectura ecléctica de reminiscências revivalistas - mansardas rasgadas por um óculo. uma varanda neomanuelina e um remate de flores do Lis acima da cornija -, veio contribuir para a definição de um traçado mais regular da Praça. Era propriedade de Maria de Jesus Oliveira Zuquete, quando aí foi levantado, em 1888, após ter sido estabelecido o projecto da demolição do Arco e ampliação da Praça, da autoria dos engenheiros Carlos Augusto de Abreu, José Bernardes Lopes de Andrade e José Charters de Azevedo.

Da abertura da Praça ao exterior, em finais de Oitocentos, surgia a ligação de uma praça a um espaço amplo, no lugar do antigo Rossio - o Campo D. Luís I (atual Largo 5 Outubro), assim denominado a partir de 1877 -, que foi palco do Romantismo, com novas funções sociais e atributos citadinos. Entretanto, na Praça, continuava a realizar-se a feira, persistência do tempo...

E quem não se lembra do espectáculo pitoresco da feira, descrito por Eça de Queirós numa das passagens de O Crime do Padre Amaro: «Nessa manhã, com efeito, a afluência das freguesias enchia a Praça: os homens em grupo, atravancando a rua, muito sérios, muito barbeados, de jaqueta ao ombro; as mulheres aos pares, com uma fortuna de grilhões e de corações de ouro sobre peitos pejados; nas lojas, os caixeiros azafamavam-se por trás dos balcões alastrados de lençaria e de chitas; nas tabernas apinhadas gralhava-se alto; pelo mercado, entre os sacos de farinha, os montões de louça, os cestos de broa, ia um regatear sem fim; havia multidão ao pé das tendas onde reluzem os espelhinhos redondos e transbordam os molhos de rosários; velhas faziam pregão por trás dos seus tabuleiros de cavacas; e os pobres, afreguesados à cidade, choramingavam padre-nossos pelas esquinas.»

Porém, no ultimo quartel do século XIX, a Praça embelezava-se; um novo empedrado resplandecia sob a presença acolhedora das árvores e a nota civilizada dos candeeiros de iluminação a gás, inaugurada em 1893; e o seu comércio animava-se nas suas lojas baixas, protegidas por toldos de lona colorida... Edificações dessa época ou mesmo anteriores - como a casa da esquina com a Rua D. Dínis, com sobrelojas de estilo pombalino, vãos emoldorados de vergas curvas no andar nobre e uma varanda corrida no último piso -, davam a escala e a tradição de uma arquitectura modesta e de soluções simples.

Outro edifício, entre as Ruas Gago Coutinho e Sacadura Cabral (são doze, no total, as ruas que desembocam na Praça...), possui três andares com varandas corridas apoiadas sobre consolas, vãos de vergas encurvadas e é rematado por uma cornija em forma de frontão. Mas, em princípios do século, a Praça enfeitou-se com uma arquitectura de outro gosto; assim, por volta de 1910,no edifício junto à Rua Rodrigues Carneiro, surgia uma nova gramática decorativa de ornamentos florais - nas molduras das janelas, nas grades e na platibanda que interrompe a balaustrada, encimada por pequenas esculturas -, com um novo arranjo estrutural dos vãos tripartidos, sob um marco abatido, na loja do rés-do-chão, de influência Arte Nova.

No início dos anos 30, um novo empedrado, com jogos de motivos de cores escuras, veio confinar-se ao centro, de modo a agenciar a circulação em torno da Praça. Ao meio seria, seria erigida uma estátua ao célebre autor da Corte na Aldeia (1619), que passou longos anos em Leiria - que morreu afogado numa numa viagem de barco, entre Santarém e Lisboa... O monumento, uma escultura em bronze sobre um pedestal de pedra, da autoria do escultor Joaquim Correia, foi inaugurada em 22 de Maio de 1973.

A designação de Praça Rodrigues Lobo estava já implantada na toponímia leiriense, desde 18 de Dezembro de 1877, e assim se conservou, apesar das alterações toponímicas introduzidas ao longo dos anos e, em especial, da mudança de regime político, em 1910. Porém, no coração de Leiria, ela continua a desfrutar o previlégio de ser ainda a «Praça» por excelência, a única na cidade que conserva viva a tradição e a herança de um programado passado urbanístico.

DESCRIÇÃO RETIRADA DO LIVRO (CIDADES E VILAS DE PORTUGAL - LEIRIA - DE LUCÍLIA VERDELHO DA COSTA - PERTENÇA DA BIBLIOTECA MUNICIPAL «AFONSO LOPES VIEIRA»

www.cm-leiria.pt

 

Publicado por alfredocr às 18:05
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De Catarina Rodrigues a 29 de Janeiro de 2007 às 18:11
Gostei muito de ler o artigo e principalmente gostei de ver a fotografia de 1900 em comparacao com as fotografias mais recentes. A praca esta cada vez mais bonita conforme os predios vao sendo arranjados, ainda ha um bocado a fazer mas esta em bom caminho.


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