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Segunda-feira, 29 de Janeiro de 2007

A SÉ

 

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A SÉ DA DIOCESE DE LEIRIA

POR VOLTA DE 1527, LEIRIA CONTAVA 584 VIZINHOS NA VILA E ARRABALDE, DOS QUAIS 53 CAVALEIROS E 40 CLÉRIGOS, E O RESTO ERA POVO (BRAANCAMP FREIRE). NO MESMO ANO, FREI BRÁS DE BARROS (C.1485-1561), PRIMO DO CÉLEBRE HUMANISTA JOÃO DE BARROS, INICIAVA A REFORMA DO MOSTEIRO DE SANTA CRUZ DE COIMBRA (1527-1554), NO ÂMBITO DA POLÍTICA CULTURAL DE D.JOÃO III. FORMADO EM PARIS E EM LOVAINA, PRIOR-MOR DO MOSTEIRO DOS JERÓNIMOS DA PENA (SINTRA), AQUELE TEÓLOGO REFORMADOR, QUE EM 1528 INSTITUÍA OS ESTUDOS REGULARES NO MOSTEIRO DE SANTA CRUZ, FOI O PRIMEIRO BISPO DE LEIRIA, ELEVADA A CIDADE E A DIOCESE EM 22 DE MAIO DE 1545.

A CRIAÇÃO DO BISPADO DE LEIRIA ENQUADRA-SE NO ÂMBITO DA REFORMA DOS CÓNEGOS REGRANTES DE SANTO AGOSTINHO, A QUEM AINDA PERTENCIA O ECLESIÁSTICO DE LEIRIA. O EMPENHO DE FREI BRÁS DE BARROS, INTERPRETADO COMO MERA AMBIÇÃO PELA RAINHA D. CATARINA - «EL FRAYLE QUIERE SER OBISPO» -, ERA PORÉM IDÊNTICO AO DO PRÓPRIO REI QUE, EM 1543, SOLICITARIA AO PAPA UMA ALTERAÇÃO DA DIVISÃO DIOCESANA, DA QUAL RESULTARAM AINDA OS NOVOS BISPADOS DE MIRANDA DO DOURO E O DE PORTALEGRE.

USUFRUINDO DO DIREITO DE APRESENTAÇÃO DOS BISPOS (CONCEDIDO PELO PAPA A D. MANUEL), D. JOÃO III RECOMPENSOU, ASSIM, O INCANSÁVEL REFORMADOR, «DE MUYTAS VIRTUDES E DE GRANDE EXEMPLO DE VIDA E DE RELIGIAM, E EXPERIÊNCIA DO REGIMENTO E GOVERNO DAS COUSAS ECLESIÁSTICAS» (CARTA DE D. JOÃO III AO EMBAIXADOR DE PORTUGAL EM ROMA, 1544). TOMANDO POSSE DO BISPADO EM NOME DO REI E DO PAPA, EM 1546, SÓ TRÊS ANOS MAIS TARDE FORAM APROVADAS AS SUAS CONSTITUIÇÕES DO BISPADO DE LEIRIA, QUE REGULAMENTARAM O FUNCIONAMENTO DA NOVA DIOCESE. EMBORA AS CONSTITUIÇÕES DE FREI BRÁS DE BARROS TIVESSEM SIDO PROVAVELMENTE IMPRESSAS NO MOSTEIRO DE SANTA CRUZ DE COIMBRA, NÃO DEVE NEGLIGENCIAR-SE O FACTO DE QUE LEIRIA FOI A TERCEIRA CIDADE DO PAÍS (DEPOIS DE FARO E LISBOA), A POSSUIR TIPOGRAFIA - OS ALMANACH PERPÉTUO DOS MOVIMENTOS CELESTES DO JUDEU ABRAÃO ZACUTO, QUE PEDRO ÁLVARES CABRAL UTILIZOU NA SUA PRIMEIRA VIAGEM AO BRASIL, DESTACA-SE COMO UMA DAS GLÓRIAS DA IMPRENSA DE LEIRIA.

LOGO EM 1546, DUAS PREOCUPAÇÕES DOMINARAM O INÍCIO DO BISPADO DE FREI BRÁS DE BARROS: A CONSTRUÇÃO DA NOVA CATEDRAL, FUNÇÃO QUE COUBE TEMPORARIAMENTE À IGREJA DA PENHA, E A INSTALAÇÃO DOS PAÇOS EPISCOPAIS. PARA ESTES ULTIMOS, ESCOLHEU O BISPO O «SÍTIO DOS ANTIGOS PAÇOS» DE D. DINIS, ONDE ESTAVA INSTALADA  «A CASA  QUE SERVIA DE CÂMARA». PORÉM SÓ NO REINADO DE FILIPE II, O BISPO D. PEDRO DE CASTILHO, FILHO DO CÉLEBRE ARQUITÉCTO DIOGO DE CASTILHO, OBTEVE A CEDÊNCIA DOS REFERIDOS PAÇOS, «CHAMADOS DE EL-REI, NA CERCA DA VILA ANTIGA, ONDE ESTAVA A CAPELA DE S. SIMÃO» (O COUCEIRO..., 1868), OS QUAIS FORA ARRASADOS DURANTE O CURTO BISPADO DE D. FREI ANTÓNIO DE SANTA MARIA (1616-1623), FILHO NATURAL DE D. JORGE, DUQUE DE COIMBRA.

A CONSTRUÇÃO DOS NOVOS PAÇOS EPISCOPAIS INICIOU-SE COM D. DIOGO DE SOUSA (C. 1640-1670), E FOI CONCLUÍDA POR D. MANUEL DE AGUIAR (1790-1815), EM OBRAS DE RESTAURO E AFORMOSEAMENTO. SOBRANCEIROS À SÉ, FORAM INCENDIADOS DURANTE AS INVASÕES FRANCESAS E DE NOVO RESTAURADOS POR INICIATIVA DO BISPO D. JOÃO INÁCIO DA FONSECA MANSO (1818-1834), QUE AÍ RECEBEU D. MIGUEL. ESTE GRANDE CASARÃO APALAÇADO, ARTICULANDO-SE SOBRE UM CLAUSTRO, E QUE SERVE HOJE DE INSTALAÇÕES Â POLICIA DE SEGURANÇA PÚBLICA, É DE UMA ARQUITÉCTURA AUSTERA, COM UM ARRANJO BARROCO NOS ELEMENTOS DECORATIVOS E, MESMO, ESTRURURAIS (FRONTÕES QUEBRADOS, LIGAÇÃO DO PORTAL À VARANDA, ENCIMADOS POR BRASÃO). NAS PRIMEIRAS DÉCADAS DESTE SÉCULO (XX), FOI COLOCADA, NO CENTRO DO CLAUSTRO, UMA ESTÁTUA DE D. AFONSO HENRIQUES (C. 2,290 METROS DE ALTURA), PROVENIENTE DO ARCO DA MEMÓRIA DA SERRA DOS ALBARDOS, OBRA SEISCENTISTA QUE CAIU EM RUINAS. ACTUALMENTE, A ESCULTURA, DA MESMA ÉPOCA, ENCONTRA-SE NUM MIRADOURO DA AV. ERNESTO KORRODI - NO LOCAL DESTINADO, SEGUNDO UM PROJECTO DAQUELE ARQUITÉCTO (C. DE 1920), À IMPLANTAÇÃO DE UM MONUMENTO A MOUZINHO DE ALBUQUERQUE.

A SÉ DE LEIRIA, DA TRAÇA DO ARQUITÉCTO AFONSO ÁLVARES (ACTIVO DE 1550 A 1575), SEGUNDO R. SMITH), INAUGURA A PRIMEIRA GRANDE OBRA DO RENASCIMENTO TARDIO NESTA CIDADE. AO EDIFÍCIO ESTÁ INDISSOCIAVELMENTE LIGADA A MARCA DA SUCESSÃO DOS BISPOS, COM ACRESCENTOS, ENRIQUECIMENTOS E TAMBÉM ALGUMAS ALTERAÇÕES, SOBRETUDO APÓS O TERRAMOTO DE 1755; NA FACHADA, PROFUNDAMENTE MODIFICADA NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XVIII, ACENTUOU-SE O SEU «ESTILO FRIO» DE «CANTARIAS PESADAS E JESUÍTAS» (EÇA DE QUEIRÓS), QUE CARATERIZA TODO O EXTERIOR, DE UM ASPECTO MACIÇO.

ATRAVÉS DE UMA CARTA DE FREI BRÁS DE BARROS, DE 15 DE JUNHO DE 1548, DIVULGADA POR JAIME CORTESÃO, SABE-SE QUE O SÍTIO ONDE DEVIA ERGUER A NOVA CATEDRAL NÃO TINHA SIDO AINDA ESCOLHIDO NAQUELA DATA; POR OUTRO LADO, OUTRA CARTA DO BISPO DE LEIRIA, DE 15 DE JULHO DE 1551, A D. JOÃO III, DEIXA ENTENDER QUE NÃO SÓ O REI SE DESLOCOU A LEIRIA PARA A ESCOLHA DO LOCAL, COMO TAMBÉM EMENDOU A «INVENÇÃO DA OBRA»... AINDA SEGUNDO JAIME CORTESÃO CORROBORADO POR GEORGE KUBLER (PORTUGUESES PLAIN ARCHITECTURE...,1969) A PRIMEIRA PEDRA TERIA SIDO COLOCADA EM 11 DE AGOSTO DE 1550; A CAPELA-MOR FOI TERMINADA EM 1572 E A CATEDRAL SAGRADA EM 1574, QUANDO ERA JÁ BISPO D. Fr. GASPAR DO CASAL (1557-1579).

A LOCALIZAÇÃO DA NOVA SÉ. NO AINDA DENOMINADO LARGO DA SÉ, ASSINALA UMA PREOCUPAÇÃO URBANÍSTICA DE INTERESSE CONSIDERÁVEL; ESTENDENDO-SE PARALELAMENTE AO ANTIGO ROSSIO, SITUA-SE NUM RECINTO AMPLO, A LESTE DA CIDADE, PARA A QUAL SE ORIENTA A FACHADA PRINCIPAL, COMO SE FOSSE SEU NATURAL COROLÁRIO. E FOI NESSA DIRECÇÃO QUE LEIRIA SE EXPANDIU, APROXIMANDO-SE DO TRAJECTO SINUOSO DO RIO, CRESCIMENTO URBANÍSTICO QUE A CONSTRUÇÃO DA CATEDRAL PRECEDEU E DINAMIZOU.

A SÉ DE LEIRIA, COMO AS DE PORTALEGRE E MIRANDA DO DOURO, FILIA-SE NAS HALLENKIRSCHEN, IGREJAS DE TRÊS NAVES SITUADAS À MESMA ALTURA, SENDO COBERTA POR ABÓBADAS NERVADAS NAS NAVES E ABÓBADAS DE BERÇO ORNADAS DE CAIXOTÕES NAS TRÊS CAPELAS QUE FORMAM A CABECEIRA. EMBORA ALMEJANDO A MESMA IMPORTÂNCIA DAS ANTIGAS CATEDRAIS GÓTICAS, COM IDÊNTICO SENTIDO DA VERTICALIDADE - VISIVEL AINDA NOS VÃOS DAS JANELAS -, TRATA-SE DE UMA ARQUITECTURA SÓBRIA, CUJO SENTIDO DA HARMONIA RESULTA ESSENCIALMENTE DO CÁLCULO MATEMÁTICO DAS SUAS PROPORÇÕES (A LARGURA DA NAVE PRINCIPAL É IGUAL À DIAGONAL DOS TRAMOS COLATERAIS E ESTA ÚLTIMA, SOMADA A METADE DA LARGURA DAS NAVES COLATERAIS, DÁ A DIAGONAL DOS TRAMOS DA PRIMEIRA...).

AS NERVURAS DAS ABÓBADAS, ASSENTES SOBRE PILARES ROBUSTOS, IRRADIAM DOS ARCOS TORAIS E FORMEIROS, SENDO SEXTAVADAS NAS EM MAIS PANOS NA NAVE PRINCIPAL, COM A LIGAÇÃO DOS TERCIARÕES AOS LIERNES; EMBORA O SISTEMA CONSTRUTIVO SE ASSEMELHE A UMA ABÓBADA DE CRUZARIA DE OGIVAS, O PERFIL FINO E DE SECÇÃO RECTANGULAR DAS NERVURAS, ASSIM COMO A ESPESSURA DAS PAREDES E DOS PILARES, COM FUNÇÕES ESTRUTURAIS DE SUPORTE, EVIDENCIA O SEU PAPEL COMO ELEMENTO DECORATIVO.

O CLAUSTRO, DE UMA AUSTERIDADE SEVERA, FOI JÁ MANDADO CONSTRUIR POR D. FREI GASPAR DO CASAL; ESTE BISPO, A QUEM ANDRÉ DE RESENDE DEDICOU UMA CARTA EM LATIM, E QUE FOI CONFESSOR DO REI E UM DOS ENVIADOS AO CONCÍLIO DE TRENTE, EM 1561, PODIA TER-SE INSPIRADO, SEGUNDO GEORGE KUBLER, NO DESENHO DO PÁTIO DO ESCORIAL, DE JUAN BAUTISTA DE TOLEDO, PARA A CONCEPÇÃO DA OBRA. D.PEDRO DE CASTILHO (1583-1604), NOMEADO INQUISIDOR-MOR EM 1604, E DEPOIS VICE-REI (1605-1612), PROSSEGUIU COM AS OBRAS DO CLAUSTRO, MANDOU FAZER O GRANDE ADRO DA ENTRADA, COM UMA MAIOR DEFINIÇÃO URBANISTÍCA NA ESCADARIA ONDULADA E NA BALAUSTRADA EM PEDRA LIOZ QUE DELIMITA O RECINTO. D.Fr. ANTÓNIO DE SANTA MARIA, ALÉM DA PIA DE BAPTISMO, NA OLATERAL ESQUERDA, ENCOMENDOU AINDA O CADEIRAL E O RETÁBULO DA CAPELA-MOR; A D.MARTIM AFONSO MEXIA (1605-1615), FICARAM A DEVER-SE OS PAINÉIS, DA AUTORIA DO PINTOR SIMÃO RODRIGUES, EM 1605-1606, OS QUAIS CONSTITUEM UM «TÍPICO DOCUMENTO DO MANEIRISMO TARDIO» (VITOR SERRÃO, A PINTURA MANEIRISTA..., 1982).

APÓS O TERRAMOTO DE 1755, D. Fr. JOÃO DE N.ª S.ª DA PORTA (D. JOÃO COSME DA CUNHA E TÁVORA), QUE ESTEVE À FRENTE DO BISPADO DE 1746 A 1760, INICIOU O RESTAURO DA FACHADA, SENDO AS OBRAS CONTINUADAS POR D. Fr. MIGUEL DE BULHÕES E SOUSA, QUE MANDOU TAMBÉM INSTALAR AS TRIBUNAS COM OS ORGÃOS NA CAPELA-MOR. A FRONTARIA DE TRÊS CORPOS SEPARADOS POR PILASTRAS MONUMENTAIS, REMATADA POR UM FRONTÃO TRIANGULAR E ACROTÉRIOS, PERDEU DEFINITIVAMENTE A SUA FEIÇÃO ORIGINAL; TRÊS GRANDES JANELÕES, COM TABELAS EMOLDURADAS, VIERAM SUBSTITUIR OS ANTIGOS VÃOS - E DA FACHADA PRIMITIVA RESTAM APENAS TRÊS PORTAIS DA ENTRADA, DEFINIDOS POR ARCOS DE VOLTA PERFEITA, LADEADOS POR PILASTRAS E ENCIMADOS POR ENTABLAMENTOS. DA MESMA ÉPOCA, DATA AINDA A RECONSTRUÇÃO DA TORRE SINEIRA; ESTA FORA ERGUIDA JUNTO A UMA DAS ANTIGAS PORTAS DA MURALHA - A PORTA DO SOL -, LOGO APÓS A EDIFICAÇÃO DA SÉ, DE MODO A OUVIR-SE NA FREGUESIA MAIS DISTANTE - A DO ARRABALDE -, TENDO-SE PROVAVELMENTE APROVEITADO  O MATERIAL DE UMA DAS ANTIGAS TORRES.

EM 1798, POR INICIATIVA DO BISPO D. MANUEL DE AGUIAR, FOI CONSTRUIDO UM CEMITÉRIO A NASCENTE DO CLAUSTRO, NO DENOMINADO «SÍTIO DA ORDEM» (PLANTA DE 1809), QUE SERVIU A POPULAÇÃO ATÉ 1871; TAL FACTO DEVE TER CONTRIBUÍDO SEM DÚVIDA, PARA A DESIGNAÇÃO DE «PONTE DOS DEFUNTOS» À PONTE QUE PASSAVA SOBRE UM DOS BRAÇOS DO LIS, ENTRE A FACHADA SUL DA SÉ E O ROSSIO (AINDA DESCRITA N´O PANORAMA, EM 1888).

AS INVASÕES NAPOLEÓNICAS, QUE CAUSARAM GRANDES DANOS NA SÉ, E AS LUTAS CIVIS MARCARAM O INÍCIO DE UM PERÍODO CONTURBADO NA HISTÓRIA DA DIOCESE DE LEIRIA; O BISPADO, EXTINTO POR CARTA RÉGIA DE 14 DE SETEMBRO DE 1882, SERIA, PORÉM, NOVAMENTE INSTITUÍDO, EM 1920, COM A NOMEAÇÃO DO BISPO D. JOSÉ ALVES CORREIA DA SILVA.

ESTE ARTIGO FOI EXTRAÍDO DO LIVRO «CIDADES E VILAS DE PORTUGAL DE LUCÍLIA VERDELHO DA COSTA », PERTENÇA DA BIBLIOTECA MUNICIPAL AFONSO LOPES VIEIRA

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Sábado, 27 de Janeiro de 2007

PRAÇA RODRIGUES LOBO

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PRAÇA RODRIGUES LOBO

A Praça Rodrigues Lobo - a mais agradável de Leiria, como costumavam afirmar os coimbrãos que, habituados á sua «Praça», aí destilavam um exílio errante de docentes -, foi o verdadeiro centro urbano de Leiria; à medida que a vila se desenvolveu, abandonando a cerca antiga e aproximando-se do vale do rio, cresceu topograficamente a importância do local, de tal forma que nele se veio a levantar o pelourinho, simbolo da autonomia e da justiça municipais, ao mesmo tempo que se convertia em «Praça» pública.

Mas as origens ancestrais desta Praça prendem-se com as de um edificio religioso, a igreja de S.Martinho (c.1211), à qual estavam ligadas as confrarias do «Corpus Christi» e do Santíssimo Sacramento; a festa desta última, de fundação mais recente, realiza-se no largo do templo, onde nos inícios do século XVIII viera também estabelecer-se o Hospital de Todos-os-Santos. Com o arco e o alpendre da igreja para a realização da feira anual, instituída por D.Dinis em 30 de Abril de 1295, por «hum Beneficiado della e por hum homem bom do conselho, sendo os benefícios da renda para a «fabrica da igreja, e para as calçadas e pontes» (O couseiro..., 1869).

Da Igreja, que se situava junto ao arco que até finais do século XIX «fechava» a Praça, ficou a denominação da «Ponte de S.Martinho», que lhe dava acesso; entretanto, o local já acostumado da feira começou a animar-se semanalmente, aos domingos, hábito que foi contrariado por provisão de D. Afonso V de 10 de Julho de 1453, estipulando que «a dita feira se faça em cada hua semana aa terça feira e nom ao domingo por que assy ho avemos por serviço de Deus e nosso» (Luciano Coelho Cristino in Jornadas sobre Portugal Medieval, 1983). Em documentos posteriores a 1552, publicados por Sousa Viterbo, surge já a designação de «Praça de S.Martinho» - mas já então fora demolida a igreja, assim deixando mais amplo espaço para a urbanização da nova Praça...

neste processo interveio, curiosamente, frei Brás de Barros, cujo nome ficou ligado aos dois centros mais importantes, do ponto de vista arquitectónico e urbanistico, da Leiria quinhentista. Com efeito, em 1546, frei Brás de Barros cedeu à cidade, em troca dos antigos Paços Reais (onde estava instalada a administração do município e que seriam os futuros Paços Episcopais), «hum pedaço do Rocio junto a S.Francisco...com a clauzulla que o caminho que hia do Rocio ao longo do muro dos frades, ficaria de modo que pudesse hir por elle hum carro, e que derribando-se a Igreja de Sam Martinho, o assento e adro della ficasse à cidade para a Praça...» (O Couceiro..., 1869).

A urbanização da Praça levanta, porém, alguns problemas de difícil resolução; o hábito de realizar o mercado nos «balcões» sob a arcaria, que persistiu sempre na sua feição urbanistica, pode levar a supor tratar-se então de um arranjo de elementos arquitectónicos que integravam a antiga igreja. Aliás, só em obras relativamente recentes (c.1960), se procurou dar uniformidade ao conjunto arquitectónico definido pelas arcadas, do lado poente da Praça, apenas interrompido por uma coluna fruste, sem base e com um fruste bojudo ornado por toro que precede o capitel simples, idêntica às que restavam de uma colunata anterior. É natural que ambas - colunata e arcaria - , coexistissem desde sempre, quer pelo aproveitamento dos materiais da igreja, quer pela construção de novas arcadas.

O traçado da Praça, da segunda metade do século XVI, formando um quadrilátero quase regular, não difere, no essencial, do da planta de Leiria de 1809; tanto o conjunto das arcadas, como o do edifício que lhe está contíguo, a sul, abrindo a prespectiva da Praça ao prolungar-se para além do espaço do seu recinto, fazem lembrar imagens da Baixa de Lisboa pombalina e o seu urbanismo das Luzes. Mas esse prédio de nítida influência mardeliana, no duplo telhado germânico e no jogo dos vãos, com um perfil das molduras idêntico ao do estilo pombalino, é já posterior a 1830...

Aí se situava, com efeito, a antiga Igreja da Graça, cujo nome ainda se conserva na toponímia Leiriense, designando a rua sobranceira que desembocava no Largo da Graça. A capela de Nª.Sª. da Graça havia pertencido à Igreja de S.Martinho, sendo depois novamente reconstruida na Praça; profanada durante as lutas liberais, a Igraja da Graça foi certamente demolida na década de 30 ou já de 40. Defronte da arcada, junto à embocadura da Rua D.Dinis, antiga Rua dos Banhos ou de D.Mexia, entre a Praça e o Largo dos Banhos (actual Largo D. Paio Guterres), erguia-se a Capela de Nª. Sª. da Anunciação, que pertencia ao Palácio dos marqueses de Vila Real.

Este enorme edifício, com a sua fachada nobre orientada sobre a Praça, ostentava o brasão sobre o arco e vagas reminiscências manuelinas na janela geminada da frontaria, era de aspecto severo. Dele ficou um desenho de A. Haupt, nas suas excurções a Portugal em finais do século passado, que o descreve do seguinte modo: «as grossas cantarias do cunhal e as duas janelas graciosamente lavradas, que se abrem na vasta largura das paredes, são tudo aquilo de que o artista carecia para criar para criar uma impressão forte e completa a que não falta sequer o pitoresco resultante com a travessa que corre por baixo do arco» (Arquitectura da Renascença en Portugal, 1896).

Doado por D. joão III aos condes e depois Marqueses de Vila Real, quando lhes concedeu a alcaidaria-mor da vila, foi-lhe confiscado após a conspiração de D. Luis de Noronha e Meneses, sétimo marquês e nono conde de Vila Real, contra D. João IV. Os bens dos Vilas Reais passaram a integrar a Casa do Infantado e com eles D. Pedro, o primeiro a usufruir da sua posse, realizou importantes obras de aterro do rio no Rossio. O Palácio seria mais tarde reivindicado, com sucesso, por um descendente natural de D. Miguel de Meneses, que recebeu o título de primeiro conde de Valadares - e cujo filho, D. Alvares Abranches e Noronha, bispo de Leiria de 1694 a 1746, celebrou missa na igreja de S. Roque, em Lisboa, por alma do padre António Vieira.

Demolido o grande palácio, em 1884, em pouco se alterou a configuração urbanística da Praça, se se exceptuar o desaparecimento do velho arco. No seu lugar ergueu-se, de um lado, um prédio de rendimento formando gaveto com o actual com o actual Largo 5 de Outubro e a Travessa de Sant´Ana (Rua Vasco da Gama), reconstruido pelo arquitécto Ernesto Korrodi, por volta de 1915; pertencia, então, a Joaquim de Oliveira Zuquete, um dos mais activos intervenientes na vida social leiriense após a instauração da Républica.

Do lado oposto, outro prédio de gaveto, com pormenores que realçam a sua arquitectura ecléctica de reminiscências revivalistas - mansardas rasgadas por um óculo. uma varanda neomanuelina e um remate de flores do Lis acima da cornija -, veio contribuir para a definição de um traçado mais regular da Praça. Era propriedade de Maria de Jesus Oliveira Zuquete, quando aí foi levantado, em 1888, após ter sido estabelecido o projecto da demolição do Arco e ampliação da Praça, da autoria dos engenheiros Carlos Augusto de Abreu, José Bernardes Lopes de Andrade e José Charters de Azevedo.

Da abertura da Praça ao exterior, em finais de Oitocentos, surgia a ligação de uma praça a um espaço amplo, no lugar do antigo Rossio - o Campo D. Luís I (atual Largo 5 Outubro), assim denominado a partir de 1877 -, que foi palco do Romantismo, com novas funções sociais e atributos citadinos. Entretanto, na Praça, continuava a realizar-se a feira, persistência do tempo...

E quem não se lembra do espectáculo pitoresco da feira, descrito por Eça de Queirós numa das passagens de O Crime do Padre Amaro: «Nessa manhã, com efeito, a afluência das freguesias enchia a Praça: os homens em grupo, atravancando a rua, muito sérios, muito barbeados, de jaqueta ao ombro; as mulheres aos pares, com uma fortuna de grilhões e de corações de ouro sobre peitos pejados; nas lojas, os caixeiros azafamavam-se por trás dos balcões alastrados de lençaria e de chitas; nas tabernas apinhadas gralhava-se alto; pelo mercado, entre os sacos de farinha, os montões de louça, os cestos de broa, ia um regatear sem fim; havia multidão ao pé das tendas onde reluzem os espelhinhos redondos e transbordam os molhos de rosários; velhas faziam pregão por trás dos seus tabuleiros de cavacas; e os pobres, afreguesados à cidade, choramingavam padre-nossos pelas esquinas.»

Porém, no ultimo quartel do século XIX, a Praça embelezava-se; um novo empedrado resplandecia sob a presença acolhedora das árvores e a nota civilizada dos candeeiros de iluminação a gás, inaugurada em 1893; e o seu comércio animava-se nas suas lojas baixas, protegidas por toldos de lona colorida... Edificações dessa época ou mesmo anteriores - como a casa da esquina com a Rua D. Dínis, com sobrelojas de estilo pombalino, vãos emoldorados de vergas curvas no andar nobre e uma varanda corrida no último piso -, davam a escala e a tradição de uma arquitectura modesta e de soluções simples.

Outro edifício, entre as Ruas Gago Coutinho e Sacadura Cabral (são doze, no total, as ruas que desembocam na Praça...), possui três andares com varandas corridas apoiadas sobre consolas, vãos de vergas encurvadas e é rematado por uma cornija em forma de frontão. Mas, em princípios do século, a Praça enfeitou-se com uma arquitectura de outro gosto; assim, por volta de 1910,no edifício junto à Rua Rodrigues Carneiro, surgia uma nova gramática decorativa de ornamentos florais - nas molduras das janelas, nas grades e na platibanda que interrompe a balaustrada, encimada por pequenas esculturas -, com um novo arranjo estrutural dos vãos tripartidos, sob um marco abatido, na loja do rés-do-chão, de influência Arte Nova.

No início dos anos 30, um novo empedrado, com jogos de motivos de cores escuras, veio confinar-se ao centro, de modo a agenciar a circulação em torno da Praça. Ao meio seria, seria erigida uma estátua ao célebre autor da Corte na Aldeia (1619), que passou longos anos em Leiria - que morreu afogado numa numa viagem de barco, entre Santarém e Lisboa... O monumento, uma escultura em bronze sobre um pedestal de pedra, da autoria do escultor Joaquim Correia, foi inaugurada em 22 de Maio de 1973.

A designação de Praça Rodrigues Lobo estava já implantada na toponímia leiriense, desde 18 de Dezembro de 1877, e assim se conservou, apesar das alterações toponímicas introduzidas ao longo dos anos e, em especial, da mudança de regime político, em 1910. Porém, no coração de Leiria, ela continua a desfrutar o previlégio de ser ainda a «Praça» por excelência, a única na cidade que conserva viva a tradição e a herança de um programado passado urbanístico.

DESCRIÇÃO RETIRADA DO LIVRO (CIDADES E VILAS DE PORTUGAL - LEIRIA - DE LUCÍLIA VERDELHO DA COSTA - PERTENÇA DA BIBLIOTECA MUNICIPAL «AFONSO LOPES VIEIRA»

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Terça-feira, 23 de Janeiro de 2007

CONVENTO DA PORTELA (FRANCISCANOS)

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CONVENTO DA PORTELA MAIS CONHECIDO POR FRANCISCANOS

JÁ NO FINAL DO SÉCULO XIX (1898) FOI INICIADA A CONSTRUÇÃO DO CONVENTO DA PORTELA, LOCALIZADO JUNTO À ESTRADA DA MARINHA GRANDE, MAS SÓ NO SÉCULO XX ESTA OBRA FOI CONCLUIDA, TENDO AÍ FUNCIONANDO UM ESTABELECIMENTO DE ENSINO.

COMPILADO DO LIVRO - LEIRIA HISTÓRIA E MORFOLOGIA URBANA DE ANA PAULA MARGARIDO, PERTENÇA DA BIBLIOTECA MUNICIPAL DA CML - www.cm-leiria.pt

 

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Domingo, 21 de Janeiro de 2007

RECANTO JARDIM FRANCISCANO

FOTO DE UM JARDIM EM FRENTE AO CONVENTO DOS FRANCISCANOS DECORADO COM PEDRAS RETIRADAS DO ANTIGO CONVENTO DOS FRANCISCANOS DA RUA DE S.FRANCISCO.

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Sábado, 20 de Janeiro de 2007

CÂMARA MUNICIPAL DE LEIRIA

PAÇOS DO CONCELHO

EDIFIO DA CAMARA MUNICIPAL DE LEIRIA

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